segunda-feira, 24 de abril de 2017

Ctrl+Alt+Del - Desapego

Três de fevereiro* foi o 1º dia, oficial e combinado, que eu e Beto começamos a empacotar nossas coisas e a dividi-las entre levar, guardar (para levar depois), guardar (deixando na casa dos nossos pais para deus-sabe-quando levá-las), doar ou vender. Confesso que estava ansiosa por fazer isso e terminei, muito antes desse dia oficial, a fazer isso devagarinho desde que decidimos ir morar na Alemanha, muito antes até de qualquer confirmação do visto. E comecei fazendo isso com as coisas que, independente de nos mudarmos ou não, já não mais queríamos.

Nossa 1ª experiência com o desapego foi quando pensamos em morar na NZ e Beto foi na frente. Desde então procuramos ser muito menos consumistas e comprar o necessário, mas este é um exercício diário e que, às vezes, me leva para um ponto extremo, como por exemplo, o de usar roupas mais gastas do que devia. Mas talvez seja melhor do que o outro extremo, o de não comprar nada, não ir para o shopping (somente ao cinema e sair de lá correndo pra não ver nenhuma vitrine) e, em um determinado dia, entrar em uma Le Lis Blanc da vida, achar que sou rica, comprar tudo o que gostei e me endividar no crédito :O

Desde então nossa casa se esforça para ser minimalista. Até porque, por um bom tempo, antes de Ícaro nascer e precisarmos de Ana, éramos nós três que limpávamos. E, quanto menos decoração, melhor. Então, achava que arrumar as malas para essa grande mudança seria uma tarefa simples, já que não tínhamos tantas coisas assim e, muitas delas, já velhinhas e gastas.

Só que esse trabalho de abrir gavetas e closets e sair mexendo em tudo, mexe não só fisicamente, com as caixas que temos de carregar ou fechar, como também emocionalmente, desenterrando o passado. Pelo menos só me trouxe lembranças boas!

Para acalmar o emocional, você dá um tempo para ler uma página do diário ou assistir a uma gravação, e para adiantar a parte prática, você já sai tirando fotos e pensando nos preços dos objetos a serem vendidos e postando no Facebook.  Mas isso estica muito mais o tempo e, uma tarefa que poderia ser feita em apenas um final-de-semana, já havia concluído que seria feita em um mês... e um mês é só o que tínhamos...

Vender nossas coisas pelo Face ou OLX foi uma experiência gratificante que eu só me dei conta muito tempo depois. Não ajudava apenas à nossa mudança, e a juntar mais um dinheirinho, mas ajudava outras pessoas a conseguirem comprar coisas por um preço muito mais em conta! E o vender por preços, muitas vezes simbólico, faz com que a pessoa valorize a compra. Melhor do que simplesmente dar, porque você sabe que aquela pessoa realmente deseja aquilo. É um exercício de conscientização do consumismo desenfreado ao qual somos, de certa forma, impostos.

Eu recebi na portaria do meu prédio pessoas que nunca havia encontrado antes e que vinham de bairros até distantes atrás de algum DVD ou livro. Saber que a minha coleção dos Simpsons hoje está na mão de um cara chamado Alex que passa as madrugadas assistindo aos episódios e se despencou de buzu lá do cabula pra comprar 5 temporadas a R$25 me deixa feliz :D

Vendendo, nós conhecemos pessoas interessantes, que nos fizeram rir nos chats, pedindo pra baixar mais o preço ou tirando dúvidas de coisas tão estranhas quanto perguntar se uma mesa de som da década de 80 tinha entrada pra pen drive! Também reencontramos pessoas que há muito tempo não víamos. Velhos colegas de trabalho, conectados pelas redes sociais, que vieram à nossa casa e trouxeram boas recordações. E também, através dessas vendas, recebemos não só dinheiro, mas presentes! Uma amiga me deu um pilha de roupas de frio lindas e não pediu nada em troca! Mas eu fiz questão de lhe dar o desconto merecido na geladeira que comprou em nossa mão.

Desapegar é uma experiência única que mexeu muito comigo. Ver sua casa se esvaziando, querer almoçar e se dar conta de que já vendeu todos os pratos, olhar para a varanda sem os móveis e a rede, e para a mesa da sala sem as cadeiras, sentir o coração se alegrando com a mudança, mas se apertando também com ela... Foi emocionante! E, mais ainda, quando você recebe os agradecimentos dos seus amigos e até de desconhecidos compradores, que não só te escrevem, mas te mandam fotos dos seus antigos porta-retratos em novas estantes, de seus móveis se adaptando a novas casas e de suas luminárias iluminando novos quartos.

*Beto viajaria com Ícaro para se despedir de familiares em Minas e SP no dia 02/02 e não queríamos que Ícaro passasse por toda essa mudança. Ele já vinha apresentando umas dermatites que eu tinha certeza que era emocional :(

sábado, 22 de abril de 2017

Ctrl+Alt+Del - Ana

Ana é uma dessas pessoas que aparecem na sua vida sem querer. Mas peraê... as pessoas nunca aparecem em nossas vidas sem querer... rs Tem sempre um motivo, uma aprendizagem... Mas o que quis dizer é que Ana estava procurando emprego e um conhecido meu (porteiro de uma escola na qual trabalhei e pai de uma das minhas alunas, que mais tarde tornou-se professora e foi contratada por mim - adoro esse ciclo!) me pediu ajuda para conseguir emprego pra ela. Então levei seu currículo lá pra escola, mas já foram me avisando que não iam contratar mais ninguém.

Como Ana estava procurando qualquer emprego, contanto que tivesse carteira assinada e pagamento das taxas, eu pedi a esse meu amigo para perguntar se ela gostaria de trabalhar "em casa de família". Pois é... estava chegando um bebê em casa que ia nos transformar e mudar todo o ambiente! E a casa ia deixar de ser "esculhambada" (sem preocupação se tem comida na geladeira, por exemplo - coitado do meu mais velho rs), pra ser "de família". Disse-lhe que seria de carteira assinada e com pagamento das taxas! E sem descontos! E Ana veio, então, me conhecer. Ai ela não resistiu ao meu charme e à minha barriguinha já saliente e aceitou :D

Ana começou a trabalhar na metade da minha gestação. Ela e Ícaro se conhecem desde a barriga... Apesar de não ser religiosa, uma vez uma senhora me disse que Ana e Ícaro são do mesmo orixá e por isso são assim tão conectados... Não sei quanto ao orixá, (deve ser), mas sei que eles se amam muito!


É Ana pra cá, Ana pra lá, cadê Ana, Ana vem hoje?, Ana que brinca, Ana que cuida, Ana que mima, Ana que se preocupa, Ana que chora desde o dia que soube que ia chegar a hora... 

Acontece, o que vou deixar claro pra ela, é que a vida é feita de ciclos... E, mesmo que não fôssemos nos mudar, Ícaro já vai fazer 5 anos... E eu já ia colocá-lo no tempo integral e já íamos voltar a cuidar da casa nós mesmos, como sempre fizemos, dividindo as tarefas entre eu, Beto e Thiago meu mais velho, que hoje já mora só e se cuida, porque também não ficou pra sempre com babá...

Ana não era apenas babá. Ana era faz-tudo. E fazia tudo com alegria! Sempre que eu estava com tempo, ajudava-a na limpeza. Nunca deixava a pia suja de fim-de-semana para ela encontrar na segunda. E discutíamos algumas coisas de Ícaro e eu ficava feliz de pensarmos igual.

Ana me viciou em café! E agora vou sentir falta do seu cafezinho (apesar de ser açúcar com café). Mas, na verdade, o que sentirei falta será das conversas do cafezinho, que incluíam as reclamações dos seus parentes, que ela me contava em tom de desabafo. Só não vou sentir falta das notícias horrorosas que ela me contava das coisas que aconteciam onde ela morava ou do sensacionalismo dos noticiários que ela assistia! Mas Sentirei falta do seu carinho e cuidados que iam desde Ícaro até nossos três gatinhos*, que ela adotou com muito amor!

E, como fechamento de ciclo, não queria ir embora sem deixá-la encaminhada. Então pensei em, finalmente, entregar seu currículo lá na escola onde eu trabalhava. Onde tudo começou... E conversei com várias pessoas que, inclusive, já a conheciam, porque ela muitas vezes levava Ícaro e ficou com ele naquele período de adaptação da pré-escola. E essas pessoas já sabiam o quanto ela era bacana! Não precisei nem falar muito. Mas fiz questão de deixar por escrito em uma carta de referência. Coisa que não se faz mais, só que eu achei que era importante!

Salvador, 12 de dezembro de 2016

A quem possa interessar,

Esta carta é para certificar que a Sra. Ana Maria Moreira de Jesus começou a trabalhar em nossa casa em janeiro de 2011 e irá trabalhar até o momento da nossa partida, em 20 de fevereiro de 2017, ou antes, se ela conseguir emprego. Ana trabalha como cuidadora da casa e do meu filho, agora com 4 anos.

Como cuidadora, os deveres de Ana incluíam: arrumar toda a casa, cozinhar, dar banho e arrumar meu filho, e até mesmo cuidar dos nossos três gatos que ela, prontamente, aceitou levar para casa para cuidar por conta da nossa mudança para a Europa. Único motivo pelo qual estamos dispensando-a.

Conheço Ana há mais de quatro anos, quando ainda estava grávida, procurando alguém para tomar conta do meu filho. Como cuidadora, Ana é altamente ativa e amorosa. Ela contribui com sugestões práticas para o nosso dia-a-dia e está sempre pronta a ajudar. Ana é muito pontual e assídua. Além disso, está sempre preocupada com o bem-estar de meu filho e dos nossos três gatos. 

Eu recomendo Ana e tenho certeza que ela vai contribuir enormemente para qualquer casa ou empresa que a contratar. Ele é muito comprometida e trabalhadora. Uma pessoa do bem como é difícil encontrar hoje em dia.

Caso tenha dúvidas, fique à vontade para entrar em contato comigo para maiores informações.

Atenciosamente,

Karina Nery

*Nosso gatinhos tem por volta de 16 anos e achamos que seria uma viagem muito dura para eles. Além disso, iremos ficar um tempo na casa da minha irmã.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Ctrl+Alt+Del - Let's start from the beginning

A vontade de morar fora sempre existiu ou, pelo menos, desde quando fui intercambista na Califórnia aos 15 anos e ouvi minha avó me falar, depois da minha high school graduation, pra casar com meu namorado/vizinho e ficar por lá mesmo! Mas um terremoto nos trouxe de volta ao Brasil mais cedo!

Desde então, meu mundo virou pelo avesso (ou passou a fazer mais sentido pra mim!). Da "filhinha de papai" que só tirava boas notas e estudava em escola católica, voltei dos Estados Unidos para uma escola, vamos dizer assim, mais "descolada" e, como as notas neste meu 2º ano não iam servir pra nada, já que, teoricamente, era para eu estar no 3º, foi aí que relaxei de vez!

Foi o ano do Fora Collor, participei de passeatas, filava muita aula e namorava bastante... Mas isso só durou um semestre. Ano seguinte era 3º ano, me comportei melhor um pouquinho e passei muito bem, inclusive, tirando nota máxima na redação do vestibular da UFBA para a faculdade de administração.

Só que a vida me levava para outros rumos. Saí de casa e fiz outro vestibular. Dessa vez para Letras, quando descobri a vocação pra professora dando aulas de inglês. A única coisa que não abria mão era da minha paixão por essa língua, que começou aos 10 anos, depois da minha 1ª viagem internacional... E advinha quem me levou? Vovó...

Por isso, mesmo tendo saído de casa e deixado meu pai zangado (I don't blame him), minha mãe continuava pagando meu curso de inglês. Ao concluí-lo, fiz também todos os cursos avançados até o treinamento para ser teacher e comecei a trabalhar desde cedo.

Quando se ensina línguas, o mundo se abre mais ainda, pois você passa a ter mais contato com a cultura de outros países. Sem falar nas novas amizades com pessoas viajadas. Junte a isso, o fato de eu gostar muito de filmes e músicas em inglês. Morando em Salvador, cheguei a experimentar o carnaval, mas não deu muito certo. E eu sou daquelas que pode estar fazendo um dia lindo, mas prefiro pegar meu casaco e ir ver um filme (legendado, é claro).

Então, quando contei a meus pais, minha irmã e até ao meu tio/chefe que estávamos no processo de morar fora, eles foram unânimes em dizer coisas do tipo "sempre achei que fosse você quem ia morar em outro país e não sua irmã!" (que já mora há mais de 10 anos na Alemanha), "já não era sem tempo!" e também um "é sua cara mesmo!".

Claro que todos sentiram um misto de felicidade e tristeza, mas isso fica para um outro post. Esse aqui termina falando que meu companheiro, há mais de 16 anos, não teve a chance de fazer intercâmbio aos 15, como eu, e foi ter sua experiência depois de casado. Sim, eu liberei kkk. Na verdade, foi nossa 1ª tentativa de viver em outro país (Nova Zelândia).

A ideia era ele ir na frente, fazer um curso para aprimorar seu inglês (síndrome do intermediate level), conseguir um emprego na área de TI (que é área de demanda), trocar o visto de estudante por um de trabalho e dar o OK para eu ir atrás, levando meu mais velho, que na época tinha uns 11 anos. Simples assim e perfeito, não? rs

Só que não deu certo. Eu acredito que fomos ingênuos demais ao basear nossos planos apenas na experiência de alguém, acompanhando sua história através de um blog. Também porque acredito ter sido um desejo mais dele do que meu. Eu estava em outro momento de vida, assumindo um cargo importante. E também porque fiquei preocupada com a adaptação do meu mais velho e de afastá-lo do seu pai. Todas essas coisas se embrulhavam dentro de mim. Resultado? Plano B: um mês de lua-de-mel e retorno para o Brasil. E, já de volta, passamos a falar em fazer uma cerimônia de casamento e ter filho*.

E depois de cumprido com nossos planos do retorno, nosso filho já com 4 anos, voltamos a falar sobre o assunto. Talvez inspirados em mais um casal de amigos que estava se preparando para deixar o país. Talvez pela situação de insegurança em que vivemos. Talvez porque estávamos mais maduros... Só sei que dessa vez, algo muito forte clicou em mim! E quem saiu pesquisando e planilhando e se esforçando para juntar até o último centavo... fui eu!

*histórias que vocês também podem ler nesse blog :)

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Mãe de 2ª Viagem – Nosso Processo de Desmame

Ícaro está com 2 anos e 2 meses e ainda é amamentado. Há três semanas não pede mais para mamar durante o dia, apenas para dormir à noite. E foi muito tranquilo estabelecer esse limite. Pelo menos para ele.

Na verdade, como eu trabalho fora, ele só mamava de dia nos fins de semana, quando eu ficava com ele em casa e, geralmente, ele pedia para mamar apenas quando queria dormir ou quando se machucava.

Escolhi dar um empurrãozinho para ele deixar de mamar durante o dia, em parte, porque cedi à pressão de familiares, amigos e médicos e, em parte, porque eu estava dividida.

Uma parte de mim queria mais liberdade. Tomar remédio me preocupando apenas com o efeito colateral em  mim e não nele, pintar meus fios de cabelo branco, sair pra tomar um drink, beber café á vontade, sair com qualquer roupa e não uma que fosse fácil para dar de mamar caso Ícaro quisesse...

E outra parte queria esperar o desmame natural, esperar que ícaro largasse o peito por conta própria, com medo de causar algum "trauma de infância", porque os textos que eu leio e os grupos dos quais faço parte seguem a linha que acredita que cada criança tem o seu tempo e que ela deixará de mamar quando sentir-se emocionalmente segura. E eu não queria acelerar isso.

Não sou ativista, mas admiro as minhas amigas que são. Por isso ás vezes ouvia quieta as perguntas:
- Ele não está grande demais para mamar?
- Quando é que esse menino vai parar de mamar?
- Ele ainda mama??
- Você sabe que seu leite já não o alimenta, não é?
- Você ainda tem leite??
E, ás vezes, tentava explicar que o peito não é só nutrição, é o contato emocional, que eu vou ter leite sempre até ele não querer mais e que tem muita coisa que os pesquisadores ainda não descobriram sobre os benefícios da amamentação prolongada.

Só que a amamentação precisa ser prazerosa para os dois, então escolhi o caminho do meio. Fazer primeiro o desmame diurno e de forma tranquila, sem sofrimento. Acho até que Ícaro estava mais preparado do que eu. Ele perguntava "mamá?" e ele mesmo respondia "só de 'oite'". Até que parou de pedir peito para o soninho da manhã e só  pedia pra dormir =)

Isso tudo agora, depois de dois anos e dois meses... Lembro que eu dizia que ia começar o desmame com um ano, para que, devagarinho, com dois, ele não mamasse mais. Mas quando Ícaro fez um ano, eu o achava tão pequenininho ainda que logo desisti. Aí vem aquela história da pressa... Pra que acelerar as etapas? Para ele crescer logo?

Depois eu decidi que ia amamentá-lo até ele falar "mamá", porque achava lindo ouvir uma criança pedindo. Consegui. E para quem acompanhou minha história, não foi fácil chegar até aqui. E eu acredito que as mulheres deixam de amamentar no "melhor da festa", quando a criança já pede, já olha, já conversa, mama das formas mais inusitadas, quando o peito já não dói...

Depois que ouvi Ícaro pedindo pra mamar, decidi que ia esperar mais um pouco, até poder conversar melhor com ele. E foi quando percebi que ele estava pronto pra deixar de mamar de dia.

Só que aí aconteceu algo inesperado. Ícaro ficou doente e não queria comer nem seu biscoito favorito. Fiquei em casa com ele e ele não pediu para mamar, mas meu marido e a babá dele me pediram para amamentar! E aqui estou, deitada na cama dando de mamar, enquanto escrevo a nossa história. É mesmo um processo de muito amor e paciência. Tudo tem seu tempo. Mas não se preocupem. Ele não vai mamar até a faculdade.